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Os inimigos não mandam flores

Caranguejo

Tinha um olhar de rio sem margem, apontado para a ausência. Um olhar que cheirava tabu, balzaquiano, adjetivo que se tornou item de antiquário, combinante com as mulheres –  tristes e très chic. Marta não era tão velha, mas tinha dentes decadentes, assim como as malhas da cidade. Seu paladar estava repleto de ares coloniais e costumes de começo de era: cubos de açúcar, canela e aspirina passavam na garganta e invocavam gargalhadas. Supunha que um dia a reconheceriam como detentora de linhagens, algo como Lemos ou Bolonha, precisaria estar preparada. “Mas onde eu iria colocar esses nomes, carteira não tenho, talvez, na parede caia bem”.

Ela sabia que, além das drogas de mercado, uma boa égua se reconhece pela boca, dá para carregar ouro nela, dá para falar a frase preferida de sua avó, dá até para adivinhar morte de parente. Foi assim com Bira, só pela língua lhe…

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Orientalismos-Ocidentalismos: Persépolis e Edward Said

Talvez hoje todos tenham algo a falar sobre a querida Marji, de como ela é interessante, de como ela nos contempla poeticamente e politicamente. Poderia ficar falando dos benefícios políticos e poéticos de Marjane por horas. Não canso de elogiar Marjane Satrapi. Conheci a obra de Satrapi através do youtube, futricando ¹ um filme aqui, outro acolá, assim, achei o filme Persépolis (virou filme, pois, é em primeira mão publicado em formato de História em Quadrinhos, ou Banda Desenhada, ou HQ).

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O filme se passa no momento da Revolução Iraniana de 1979 que levou o fim da monarquia pró-ocidente -comandada por Xá Mohammad Reza Pahlevi- à ascensão de uma república teocrática- comandada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini.  Mostra, nesse momento histórico, a vida da autora, e protagonista da obra Marjane Satrapi, no processo revolucionário de seu país. Marjane, mulher iraniana, viveu e foi educada na capital Teerã durante a revolução, a capital passou por mudanças políticas, econômicas e culturais. Nesse momento, já na década de 80, uma sociedade abusivamente conservadora começa a se formar diante de preceitos religiosos islâmicos. Proibições ocorreram, ou seja, tudo que inferia o ocidente acabou sendo vedado simbolicamente (O ocidente remetia ao Xá, assim como o Xá remetia ao Irã ocidentalizado), foram proibidas vestimentas, obras cinematográficas, livros, músicas, jogos, os produtos nas prateleiras dos supermercados começavam a sumir. Com medo dos bombardeios (devido a Guerra com o Iraque no mesmo período), da repressão do regime, espionagem dos vizinhos, Marjane e sua família seguiram suas vidas esperançosos. A pequena Marji se deparou com as mudanças, exilou-se.

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