Exposições, Memória

Da série “Exposições Viadas”

 

Uma exposição não é apenas um amontoado de coisas, obras, textos, estruturas, luz. Exposição é narrativa, alguém fez porque quis comunicar algo. Algumas exposições podem ser consideradas obra de arte quando postuladas diante do conjunto metalinguístico e dos diálogos múltiplos entre sujeitos, obras de arte, objetos, textos escritos (e muitos outros elementos) nelas inscritos. Um espaço de criações e recriações. É um espaço criado e inventado para comunicar algo e produzir conhecimentos. Em termos de comunicação, assim como em uma obra literária, um filme, um jogo-, o público que consome esse tipo de produto cultural é um dos principais criadores de significados. Nós, que visitamos exposições, sabemos que o modo que interpretamos uma exposição de arte (e outras) tem a ver com as nossas percepções de mundo. Se o meu mundo é todo amarelo e uma exposição mostra apenas as cores vermelhas, eu posso criticar a exposição, mas não querer fechá-la.

A exposição promovida pelo Banco Santander, QueerMuseu, buscou, com curadoria de Gaudêncio Fidelis, a partir de 85 obras de artistas como Lygia Clark, Portinari, Adriana Varejão (e outros), abordar várias temáticas LGBT, questões de gênero e diversidade sexual. Esse evento fez com que pessoas de determinados setores da sociedade (conservadores da boa moral e dos bons costumes) olhassem os objetos expostos como sendo fruto de heresia, más condutas, uma ofensa para a sociedade heteronormativa. Para esse grupo, alguns objetos até faziam apologia à zoofilia. Assim, encerraram a exposição, quem foi, foi, quem não foi, ficou na vontade. As heteronormas também fecham exposições.

Estamos resistindo a um processo perigoso de silenciamento de memórias marginais? Sim! Apoiar a reabertura da exposição é apoiar um mundo com falas diversas. Alguns apostam que esse grupo (que apoiou o fechamento da expô) não frequentava assiduamente exposições, pois, olharam a mensagem expográfica de maneira literal, com reflexões partidárias (“exposições assim são culpa da esquerda”) e pouco relevantes diante da crítica sociomuseológica sobre o tema. Isso mostra mais uma vez que a exposição é feita (ou desfeita, nesse caso) com a ajuda do público visitante, o público é o maior criador de uma exposição. Nesse caso, o público se chocou com narrativas históricas sobre o universo LGBT e da diversidade sexual em pleno século XXI. Eles acabaram entendendo a exposição como compreendem o próprio mundinho. A exposição foi criticada pelas apologias feitas à pedofilia, zoofilia, heresia, imoralidade, sexo explícito. Sabemos que essas denúncias vieram de santas e santos num alto grau de castidade (ironia). Eles nunca assistiram pornografia. São pessoas que nunca baixaram e viram um vídeo pornográfico “viralizado” nos aplicativos de mensagens, nudes, nunca enviaram uma mensagem “manda uma foto sua de agora” (ironia 2). Muitas vezes, uma exposição, uma mostra, um filme, um livro podem aterrorizar e chocar, não porque mostram um Outro diferente de mim, aquilo que eu não sou, mas sim, aquilo que eu sou na obscuridade, aquilo que eu fiz, que eu gostei de ser. Na verdade, podemos inferir que esse pessoal foi o mesmo que curtiu no twitter a foto de um comediante, aí sim, fazendo apologia à zoofilia. A dinâmica pornográfica do papa pedófilo explica muito bem esse fato.

Muitas novelas, filmes (As Vantagens de Ser Invisível, Laranja Mecânica, O Quarto de Jack, A cor Púrpura, Doce Vingança, Preciosa: uma história de esperança, Lovelace e muitos outros), livros (quem nunca leu livros de contos eróticos? Anaïs Nin está aí para isso), séries (Game of Thrones) exploram temas polêmicos em sua narrativa: racismo, homofobia, pedofilia, zoofilia, estupro, assédio sexual, violência sexual, corrupção, assassinatos em série, sangue, sangue, sangue. Devemos perceber que, não é porque eu escrevo sobre zoofilia e pedofilia que estou fazendo apologia a essas práticas. Pode ser em forma de denúncia, de mostrar tristeza e vários outros sentimentos incômodos. Para a exposição do Santander cabe uma reflexão semelhante, não é porque a obra retrata atos sexuais com animais que estariam fazendo apologia à zoofilia. Da mesma maneira podemos ler a obra de Bia Leite, que parece ter criado uma obra de arte com base no site do Tumblr “Criança Viada” (em 2014–2015 esse site “bombou”). Não há ligação entre a obra e as práticas de pedofilia.

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Travesti de Lambada e Deusa das Águas. Obra de Bia Leite, 2013.

 

O que mais deveria preocupar a sociedade como um todo não são as figuras de Jesus Cristo redesenhadas (acho até que Jesus Cristo não ficaria com raiva), as “crianças viadas”, mas sim, o modo como a intolerância acaba esmagando a arte e descartando-a como um simples produto de supermercado. A arte é movimento crítico, ela nos desterritorializa das dinâmicas nocivas e intolerantes. É um não-lugar de batalhas com nós mesmos. Deveríamos olhar essas produções artísticas como dispositivos que nos produzem e reproduzem. A arte não fez apologia à zoofilia ou pedofilia, ela nos faz/fez encarar o mundo com mais compromissos políticos-afetivos. Como afirma Afonso Medeiros (2017): “Arte não é só evasão da realidade, entretenimento ou ‘diversão sadia’. A arte comumente nos desestabiliza, nos confronta, nos questiona e, num jogo de espelhamentos, nos pergunta sempre: por que isso te incomoda?”.

Tumblr Criança Viada http://criancaviada.tumblr.com/

Vídeo de 45 filmes que retratam a cultura do estupro e o machismo: https://www.youtube.com/watch?v=a-97eFZIUWU

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Memória

Por uma leitura Pós-Colonial do Festival Amazônia Mapping

Talvez, uma das primeiras impressões que se pode ter do Festival Amazônia Mapping (FAM) é do jogo material das coisas, perceber a poética que pode transformar um monumento histórico em suporte artístico. O FAM é um evento tecnológico e artístico que ocorre na cidade de Belém (PA), ponte de diálogos  sobre as manifestações artísticas potencializadas pela relação arte-tecnologia. Nesse evento, foram feitas projeções de obras de artistas latino-americanos (fotografias, desenhos, estampas, pinturas, etc.) a partir da técnica de mapeamento de vídeo, ou video mapping¹, em monumentos históricos da cidade, mais especificamente, no Museu Histórico do Estado do Pará (MHEP) e Instituto Histórico e Geográfico do Pará (IHGP). 
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Cinema, Oriente-Ocidente, Sem categoria

Orientalismos-Ocidentalismos: Persépolis e Edward Said

Talvez hoje todos tenham algo a falar sobre a querida Marji, de como ela é interessante, de como ela nos contempla poeticamente e politicamente. Poderia ficar falando dos benefícios políticos e poéticos de Marjane por horas. Não canso de elogiar Marjane Satrapi. Conheci a obra de Satrapi através do youtube, futricando ¹ um filme aqui, outro acolá, assim, achei o filme Persépolis (virou filme, pois, é em primeira mão publicado em formato de História em Quadrinhos, ou Banda Desenhada, ou HQ).

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O filme se passa no momento da Revolução Iraniana de 1979 que levou o fim da monarquia pró-ocidente -comandada por Xá Mohammad Reza Pahlevi- à ascensão de uma república teocrática- comandada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini.  Mostra, nesse momento histórico, a vida da autora, e protagonista da obra Marjane Satrapi, no processo revolucionário de seu país. Marjane, mulher iraniana, viveu e foi educada na capital Teerã durante a revolução, a capital passou por mudanças políticas, econômicas e culturais. Nesse momento, já na década de 80, uma sociedade abusivamente conservadora começa a se formar diante de preceitos religiosos islâmicos. Proibições ocorreram, ou seja, tudo que inferia o ocidente acabou sendo vedado simbolicamente (O ocidente remetia ao Xá, assim como o Xá remetia ao Irã ocidentalizado), foram proibidas vestimentas, obras cinematográficas, livros, músicas, jogos, os produtos nas prateleiras dos supermercados começavam a sumir. Com medo dos bombardeios (devido a Guerra com o Iraque no mesmo período), da repressão do regime, espionagem dos vizinhos, Marjane e sua família seguiram suas vidas esperançosos. A pequena Marji se deparou com as mudanças, exilou-se.

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Meio Ambiente

A primeira postagem “on modern servitude”

A primeira postagem do blog surge de maneira consoladora. O ano de 2015 fica marcado na história socioambiental do Brasil por conta do desastre ocorrido dia 06 de novembro na cidade de Mariana  em Minas Gerais. Em resumo, ocorreu um rompimento em duas barragens da empresa de mineração Samarco e os detritos em formato de lama seguiram percorrendo os subdistritos da cidade (ex: distrito de Bento Rodrigues) destruindo casas, plantações, rios (rio do Carmo, rio Gualaxo, rio Doce).  Como afirma o Carta Capital, no Rio amargo que corre para o mar:

 “A empresa responsável pelo desastre é a Samarco, uma joint venture entre a Vale e a anglo-australiana BHP Billiton, que veio a público com os protocolares discursos sobre as medidas que prevenção que são tomadas, mas que há sempre elementos de imprevisibilidade, que está apoiando os desabrigados etc, etc… Tudo o que uma boa assessoria de comunicação em gestão de crises manda fazer.”

Nessa primeira escrita e em outras futuras, andarei citando, sempre que puder, um filme, documentário, exibição teatral, eventos etc. seguido de livros/leituras importantes diante do cenário , pós-colonial, pós-moderno, globalizado/mundializado em que vivemos (bem sabemos, desde os primórdios).

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