Memória

Por uma leitura Pós-Colonial do Festival Amazônia Mapping

Talvez, uma das primeiras impressões que se pode ter do Festival Amazônia Mapping (FAM) é do jogo material das coisas, perceber a poética que pode transformar um monumento histórico em suporte artístico. O FAM é um evento tecnológico e artístico que ocorre na cidade de Belém (PA), ponte de diálogos  sobre as manifestações artísticas potencializadas pela relação arte-tecnologia. Nesse evento, foram feitas projeções de obras de artistas latino-americanos (fotografias, desenhos, estampas, pinturas, etc.) a partir da técnica de mapeamento de vídeo, ou video mapping¹, em monumentos históricos da cidade, mais especificamente, no Museu Histórico do Estado do Pará (MHEP) e Instituto Histórico e Geográfico do Pará (IHGP). 

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Museu Histórico do Estado do Pará em “Espectro” de Caio Fanzolin

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  • Primeira enunciação possível: pensar o diferencial estético e político que surge em loci de deslocamentos na pós-modernidade.

No Festival, esses dois diferenciais conversam em meio às narrativas que somam arquitetura e projeções digitais, aí, ocorre a transmutação dos espaços: o tradicional-moderno-ocidental toma formas pós-modernas. Assim, um prédio (antigo Palácio do Governo no século XVIII) fundado a partir de preceitos modernos transatlânticos-coloniais somou novos usos: além de museu (desde 1981), serviu de superfície para a metalinguagem da arteexplorou obras artísticas pela própria dinâmica arte-técnica do video mapping. Ou seja, a relação entre as obras de arte e as projeções na fachada do museu  fazem do video mapping uma obra de arte em si. São jogos simbólicos que se entrecruzam na linguagem audiovisual explorada pelo Festival. É a arte-entre-arte redesenhadas no monumento-museu.

A consistência do debate está também sobre uma proposta de leitura pós-colonial. Percebemos o museu enquanto espaço dinâmico, não apenas como um lugar de guarda de objetos “imóveis”, mas, como um espaço de impermanências, de lembranças e esquecimentos. Um espaço que precisa trabalhar o compromisso da memória crítica (enquanto esquecimento e lembrança) para reforçar a importância do debate crítico sobre algumas genealogias geo-históricas fundadas nas relações: Colonizador-Colonizado, Centro-Periferia. Não façamos do museu um espaço refém de “ditaduras” modernas, eurocêntricas, cartesianas, colonizadoras, hierárquicas, mas sim, um espaço que promova a compilação e inclusão de linguagens múltiplas, de objetos e sujeitos-sensíveis variados.

Buscamos estéticas emancipadoras? 

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“Uaná System”

A vida da arte (literatura, arquitetura, teatro, música, cinema,  escultura, pintura, fotografia e etc.) só tem seguimento interpretativo no mundo quando ocorrem as mediações entre autor-obra-público. A vida dos significados só existe quando alguém interpreta a obra, o objeto. O espectador dá vida semântica aos possíveis significados de uma obra de arte.

Os jogos estéticos que envolvem o festival podem ser pensados enquanto pós-modernos e pós-coloniais, assim, no enfrentamento da arte, quais foram as “sacadas”² diante da linguagem? Cada um, provavelmente, interpretou o evento de uma maneira diferente. Mas, eu trouxe algumas das projeções apresentadas para um crítica pós-colonial. 

Uma das dinâmicas artísticas que pode representar a perspectiva teórica e prática da pós-colonialidade está, ao meu ver, na projeção “Uaná System” de Luan Rodrigues (artista visual) e WaldoSquash (artista sonoro). A projeção surge a partir de um projeto com grupos indígenas da região amazônica, no trabalho são compilados elementos culturais das etnias (seus grafismos, danças, músicas) para explorar uma narrativa audiovisual eletrônica fantástica. 

Ao olhar as projeções das imagens de grupos indígenas em um monumento “moderno-ocidental”, procurei refletir sobre quais tipos de racionalidades e sentidos nós fomos “formatados” e “projetados”. É nesse rumo que a pós-colonialidade se apresenta. Por Pós-Colonial não entendamos aquilo que vem depois, de maneira linear, mas sim, aquilo que Walter Mignolo aponta enquanto ascensão de uma razão pós-colonial que questione:

o espaço intelectual da modernidade e da inscrição da Ordem mundial em que o Ocidente/Oriente, Eu/Outro, o Civilizado/Bárbaro foram inscritos como entidades naturais. MIGNOLO, Walter.³

Portanto, o pós-colonial critica  heranças coloniais que teimam em permanecer e que redesenham relações de poder (gênero, etnia, classe) hoje no século XXI. Criticamos a construção geopolítica e geohistórica da modernidade Ocidental que teimou/teima em nos “primitivizar”. 

Vivemos em um mundo de intercâmbios simbólicos e devemos refletir sobre eles e suas relações de poder instauradas.

Para mais informações sobre o Festival, visite: http://amazoniamapping.com/

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¹ “A técnica de video mapping (VM), ou projeção mapeada, é uma forma de expressão artística e comunicativa que usa interfaces tecnológicas audiovisuais e computacionais. Video mapping é a projeção de animações cinematográficas, videográficas ou computacionais em superfícies internas e externas, com projeções controladas e mapeadas por programas de computador, que são capazes de ajustar esses conteúdos imagéticos com a finalidade de sobrepor determinada área, ou superfície desejada.” IN GARCIA, Rafael. VIDEO MAPPING: Um estudo teórico e prático sobre projeção mapeada. Trabalho de Conclusão de Curso. Departamento de Comunicação Social da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. Bauru-SP, 2014. Disponível em artigo.

² Sacar (gíria): entender, compreender. 

³MIGNOLO, Walter. Heranças coloniais e teorias postcoloniais.

 

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