A primeira postagem “on modern servitude”

A primeira postagem do blog surge de maneira consoladora. O ano de 2015 fica marcado na história socioambiental do Brasil por conta do desastre ocorrido dia 06 de novembro na cidade de Mariana  em Minas Gerais. Em resumo, ocorreu um rompimento em duas barragens da empresa de mineração Samarco e os detritos em formato de lama seguiram percorrendo os subdistritos da cidade (ex: distrito de Bento Rodrigues) destruindo casas, plantações, rios (rio do Carmo, rio Gualaxo, rio Doce).  Como afirma o Carta Capital, no Rio amargo que corre para o mar:

 “A empresa responsável pelo desastre é a Samarco, uma joint venture entre a Vale e a anglo-australiana BHP Billiton, que veio a público com os protocolares discursos sobre as medidas que prevenção que são tomadas, mas que há sempre elementos de imprevisibilidade, que está apoiando os desabrigados etc, etc… Tudo o que uma boa assessoria de comunicação em gestão de crises manda fazer.”

Nessa primeira escrita e em outras futuras, andarei citando, sempre que puder, um filme, documentário, exibição teatral, eventos etc. seguido de livros/leituras importantes diante do cenário , pós-colonial, pós-moderno, globalizado/mundializado em que vivemos (bem sabemos, desde os primórdios).

De início, primeira indicação é de um projeto chamado On Modern Servitude (2009) de Jean-François Brient e Victor León Fuentes. On Modern Servitude é uma produção independente em formato de livro e filme-documentário que procura mostrar a noção de escravidão moderna, a escravidão sob uma perspectiva das relações de poder nesse momento em que a expansão das relações capitalistas se dá de maneira mais acelerada. O projeto tange uma perspectiva “democrática” e socializa o material de maneira gratuita na internet e é distribuído em regiões alternativas na França e na América Latina. Foi escrito na Jamaica em 2007 e finalizado na Colômbia. É isento de direitos autorais e divulgado em formato de livro e filme de maneira gratuita. Livro (24 páginas) e Filme no site. Eu tive contato com esse filme a partir de um comentário feito em um site, ele pode ser visto no Youtube.

Com dezenove capítulos e um epílogo, Jean-François Brient nos faz refletir sobre as relações homem-trabalho, homem-natureza, homem-alimento, homem-política, homem-mercantilazação.

A perspectiva analítica do filme é importante para pensar as questões socioambientais do solo, da água e todos os recursos naturais inclusos nas relações On Modern Servitude. Por se tratar de um post sobre a questão socioambiental, o mais interessante aqui seria me deter ao capítulo VI do livro e do momento de 15′ e 52” do filme, onde a questão ambiental se revela. Portanto, cito-o de maneira integral

E a espoliação dos recursos do planeta, a abundante produção de energia ou de mercadorias, o lixo e os resíduos do consumo ostentoso, hipotecam a possibilidade de sobrevivência de nossa Terra e das espécies que nela habitam. Porém para deixar livre curso ao capitalismo selvagem, o crescimento econômico nunca deve parar. É preciso produzir, produzir e reproduzir mais ainda. _E são os mesmo poluidores que se apresentam hoje como salvadores potenciais do planeta. Estes imbecis da indústria do espetáculo patrocinados pelas empresas multinacionais tentam convencer-nos de que uma simples mudança em nossos hábitos seria suficiente para salvar o planeta de um desastre. E enquanto nos culpam, continuam poluindo sem cessar, nosso meio ambiente e nosso espírito. Essas pobres teses pseudo-ecológicas são repetidas pelos políticos corruptos em seus slogans publicitários. Porém nunca propõem uma mudança radical no sistema de produção. Trata-se, como sempre, de mudar alguns detalhes para que tudo fique como antes.

Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil- Moradores de Mariana caminham pela área atingida pela lama da Samarco- Via http://www.cartacapital.com.br/sustentabilidade/o-rio-amargo-que-corre-para-o-mar-9001.html
A relação homem-natureza é simplesmente evocada como um tipo de relação unívoca onde homens se utilizam , inesgotavelmente, dos produtos naturais até que ocorra desastres “humanos” na natureza. O que aconteceu em Mariana prova a ambição “mecanosférica” (por citar Deleuze) científica, política e cultural que surge na relação dos homens com o ambiente natural e histórico.

“As mercadorias modificam as relações humanas, ajudam a difundir mensagens dominantes, […] as coisas que se possuem acaba de possuir-nos.”

Com essa frase citada no filme podemos discutir a questão do homem e a servidão moderna, que, indica  “uma escravidão voluntária, aceita por essa multidão de escravos que se arrastam pela face da terra. Eles mesmos compram as mercadorias que lhes escravizam cada vez mais. Eles mesmos correm atrás de um trabalho cada vez mais alienante, que lhes é dado generosamente se estão suficientemente domados”. ² Nesse sentido, destaco a as ultimas palavras suficientemente domados para explicar a questão do sujeito diante do pós-guerra, principalmente diante do advento acelerado das novas tecnologias, dos aparatos midiáticos radiofônicos e televisivos, das sociedades das mídias. Deixemos claro que o estado dominante do sistema não vê as relações de trocas e resistências das subculturas, culturas de massa, culturas à margem.

Estado de alienação do homem? Antes, diante de uma perspectiva mais estruturalista, o homem enquanto um ser social era visto como marionete do sistema implantado. Não era consciente político, econômico e cultural. O mundo hoje é visto diante de uma perspectiva mediada, ou seja, não podemos deixar de perceber o papel interpretativo dos sujeitos diante das mensagens produzidas pelos sistemas dominantes. Todos somos conscientes.  Sobre Mariana, todos são conscientes das ações catastróficas humanas que geraram na região. Precisamos ver mulheres e homens enquanto sujeitos conscientes de si, assim, não sou eu que falo pelo outro¹ diante do seu grau de consciência. Não posso dizer “aquele indivíduo é alienado” ou “aquele indivíduo é consciente”. Acredito que todos possuem consciências de si e dos outros quando entram em relações socioculturais.

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¹ Sobre essa discussão de falar pelo outro e da fala do subalterno no mundo, ver Gayatri Chakravorty Spivak Pode o Subalterno Falar (2010)


² BRIENT, Jean-François. Da Servidão Moderna – (Livro). Tradução: Elisa Quadros. Produção Independente. 2009, p. 2.

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